" A bicicleta"

Me lembro, me lembro
foi depois do jantar, meu avô me chamou,
tinha um riso na cara, um riso de festa:
“- guilherme, vou tapar seus olhos,
venha cá.”

Os tios, os primos, os irmãos, na grande mesa redonda
ficaram rindo baixinho, estou ouvindo, estou ouvindo:
“- abre os olhos, guilherme!”

Estava na sala de jantar, junto da porta do corredor,
como uma santa irradiando, num altar,
como uma coroa na cabeça de um rei,
a bicicleta novinha, com lanterna,
campainha, lustroso selim de couro,
tudo.

Me lembrei hoje da minha bicicleta
quando chegou a minha geladeira.
Mas faltou qualquer coisa à minha alegria,
talvez a mesa redonda, os tios, os primos rindo baixinho,
” – abre os olhos, guilherme!”
Oh! faltou qualquer coisa à minha alegria!

José Guilherme de Araujo Jorge ( 1914 / 1987 )
do livro A outra face – 1a Edição – 1949
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